Estabelecimentos familiares atravessam gerações e ajudam
a manter tradições regionais da gastronomia brasileira
Mais do que negócios, muitos restaurantes familiares
brasileiros carregam histórias de afeto, memória e tradição. Criados por mães
que transformaram receitas caseiras em referência gastronômica, esses
estabelecimentos atravessam gerações e mantêm viva a identidade culinária de
diferentes regiões do país.
Segundo a Abrasel - Associação Brasileira de Bares e
Restaurantes, os restaurantes familiares desempenham papel importante na
preservação da cultura alimentar brasileira, além de fortalecer economias
locais e tradições regionais.
Legado construído em família
No Maranhão, o Casa de Juja se tornou símbolo dessa
continuidade. Fundado por Ana Lula, conhecida como Juja, o restaurante nasceu
em um formato intimista dentro da própria casa da matriarca, em São Luís.
Desgastada após anos administrando outro restaurante no
centro histórico da capital maranhense, Ana decidiu criar um espaço menor e
mais reservado, focado em experiências personalizadas. Lula Fylho, filho da
fundadora, relembra o funcionamento do ateliê gastronômico. “Não tinha
cardápio, só funcionava com reserva, a pessoa tinha que ligar antes, dizer o
que queria comer, e aí minha mãe ia e montava o prato. Ou seja, ela criava sob
medida as receitas”, destaca.
Com o tempo, receitas autorais passaram a marcar a
identidade do restaurante. “Ela criou o arroz do mar. A Delícia do Mar, a Ilha
Magnética, que é uma homenagem a uma música aqui de São Luís, chamada ilha
magnética. Um dia ela teve um sonho com uma receita e a preparou, e aí o nome
ficou o Sonho de Juja", revela Lula.
Após o falecimento da mãe, em 2021, Lula e a irmã, Luana
Lula, assumiram a gestão do negócio e decidiram ampliar o acesso ao
restaurante. “Eu queria muito abrir o restaurante para que outras pessoas, que
desejassem ir, fossem sem a necessidade de fazer reserva”, conta Lula.
A mudança transformou a operação e ampliou o faturamento do
estabelecimento.“A gente fez ficha técnica de tudo, a gente estabeleceu um
padrão, a gente fez a organização. Resumindo, minha mãe tinha um faturamento de
em média R$ 30 mil por mês e a gente aumentou o faturamento para R$ 90 mil
p/mês abrindo a casa”, revela Lula.
Hoje, o grupo possui unidades em São Luís, Atins e Tutóia,
além de um buffet na capital maranhense. Sobre o legado deixado pela mãe, Lula
destaca a dedicação da matriarca à gastronomia local. “Ela amava e ela queria
elevar o nível da gastronomia maranhense, então tudo para ela tinha que ter boa
apresentação, tinha que ter o cuidado no preparo, tinha que ter produtos
frescos”, revela.
Tradição mineira atravessa gerações.
Em Belo Horizonte (MG), outro exemplo de herança
gastronômica é o restaurante Dona Lucinha. Fundado em 1990 por Maria Lúcia
Clementino, o espaço se consolidou como referência da culinária mineira.
Natural do Serro, interior de Minas Gerais, Dona Lucinha
reuniu experiências da vida no campo e pesquisas sobre a cozinha regional para
construir o cardápio do restaurante. Márcia Nunes, filha da fundadora e atual
gestora da unidade de Belo Horizonte, conta que a mãe buscou apoio
especializado para resgatar receitas tradicionais.
O reconhecimento do trabalho levou Dona Lucinha a participar
de festivais gastronômicos no Brasil e no exterior. Atualmente, o restaurante
possui unidades em Belo Horizonte e São Paulo, além de uma operação exclusiva
para delivery na capital mineira.
Após a morte da mãe, Márcia assumiu a administração do
negócio e mantém o modelo criado pela matriarca, com poucas alterações no
cardápio e no serviço.
Gestão compartilhada no Norte do país
Em Macapá (AP), o Divina Arte também mantém a tradição
familiar como base da operação. O restaurante, comandado por Socorro Azevedo e
seus três filhos, atua há mais de duas décadas com pratos regionais e culinária
caseira. Cada integrante da família participa de uma área do negócio.
“O meu filho toma conta do setor mais chato, que é o de
contratação de funcionários e de pagar contas. A minha filha mais velha é
aquela pessoa que lida direto com o cliente, que faz as vendas. Sempre foi ela
que fechou os eventos, ela oferece pratos, ela faz propaganda do prato. E a
minha filha mais nova é a que cozinha junto comigo”, explica Socorro.
O restaurante prioriza ingredientes regionais e fornecedores
locais, valorizando sabores típicos do Amapá. “No meu restaurante os clientes
vêm pelo sabor caseiro. Eu tenho que ter todo dia filé, aqui a gente usa o filé
de búfalo, mas eu tenho vatapá, tenho a maniçoba, peixes... Nós temos também um
camarãozinho aqui da região, servido com jambu”, conta a Dona Socorro.
As decisões sobre novos pratos também são tomadas
coletivamente, com participação de filhos e funcionários. Apesar dos desafios
da convivência familiar no ambiente de trabalho, Socorro afirma que o
compromisso com o negócio mantém todos unidos.
“A gente tem as dificuldades do dia a dia. Por exemplo, por
ser mãe, eu tenho que administrar e, por ser meio ‘mão de ferro’, as ordens
sempre partem de mim. Então, a gente tem dificuldade sim, porque a gente briga,
a gente discute, mas no outro dia tem que continuar, porque é daqui que todo
mundo vive e o objetivo de todo mundo é manter a empresa”, revela com bom humor
a matriarca.



.gif)
